Resenha - Dias Perfeitos

Resenha feita pela Tay!
Título: Dias Perfeitos
Livro Único.
Autor: Raphael Montes
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 274
Ano: 2014
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Não leiam esse livro de estômago vazio. É sério.

SinopseTéo é um solitário estudante de medicina que divide seu tempo entre cuidar da mãe paraplégica e examinar cadáveres nas aulas de anatomia. Durante uma festa, ele conhece Clarice, uma jovem de espírito livre que sonha tornar-se roteirista de cinema. Ela está escrevendo um road movie sobre três amigas que viajam em busca de novas experiências. Obcecado por Clarice, Téo quer dissecar a rebeldia daquela menina. Começa, então, uma aproximação doentia que o leva a tomar uma atitude extrema. Passando por cenários oníricos, que incluem um chalé em Teresópolis e uma praia deserta em Ilha Grande, o casal estabelece uma rotina insólita, repleta de tortura psicológica e sordidez. O efeito é perturbador. Téo fala com calma, planeja os atos com frieza e justifica suas atitudes com uma lógica impecável. A capacidade do autor de explorar uma psique doentia é impressionante – e o mergulho psicológico não impede que o livro siga um ritmo eletrizante, repleto de surpresas, digno dos melhores thrillers da atualidade. Dias perfeitos é uma história de amor, sequestro e obsessão. Capaz de manter os personagens em tensão permanente e pródigo em diálogos afiados, Raphael Montes reafirma sua vocação para o suspense e se consolida como um grande talento da nova literatura nacional.

A Trama:  Téo era socialmente retraído. Não se sentia bem com as pessoas e seu único “amigo” era o cadáver de uma senhora chamada Gertrudes, que ele e os outros alunos de medicina da sua faculdade geralmente visitavam para estudos. Nem sua mãe, paraplégica, conseguia alcançar as emoções do filho, que sempre fingia se importar para que ela não sofresse mais do que já sofre. Até que um dia, num churrasco que ele não queria ir, Téo conhece Clarice e imediatamente se sente atraído pela espontaneidade e espírito livre da moça. Um selinho descompromissado antes de ela ir embora, fez com que Téo ficasse obcecado com a ideia de que Clarice era a mulher da sua vida e que precisava tê-la para si a qualquer custo. Então ele começa a segui-la, acaba encontrando-a bêbada na rua e a ajuda a ir para casa. A partir daí, Téo começa a achar que os dois estão começando alguma coisa, e quando ele vai procurar Clarice no outro dia e ela diz que não quer nada com ele, Téo acaba acertando-a com um livro e a leva desacordada para sua casa. É aí que começa a sucessão de episódios em que Téo a mantém presa à cama por algemas e, depois, decide que eles devem viajar para os lugares onde as personagens do roteiro de Clarice passam, para que ela tenha inspiração para escrever melhor.
Perturbador e agoniante. São duas palavras que ajudam a descrever esse livro. Tudo o que acontece enquanto Téo mantém Clarice presa, dá um sentimento de revolta e injustiça no leitor. Com alguns clichês, Raphael Montes criou uma trama bem intensa e capaz de despertar diversas emoções em quem lê.


O Protagonista: Admito, senti um ódio mortal de Téo. Antissocial e perturbado, ele desprezava todos a sua volta. Foi só ter um sentimento forte por alguém, que seu lado maníaco se revelou. Ele queria Clarisse de todas as formas, e seus métodos para conseguir isso não eram nenhum pouco admiráveis. Eu ficava revoltada sempre que ele tentava manipular a situação para que passasse a ser a vítima das tentativas de Clarice de se libertar. Acho que o mais incrível de tudo é que ele realmente acreditava que não estava fazendo nada de errado e que aquilo era uma prova de amor, que ele queria que Clarice apenas passasse um tempo com ele, para aprender a amá-lo como ele a amava. Um verdadeiro psicopata, cruel e sem sentimentos (embora achasse que tinha muitos). Qualquer coisa a mais que eu possa (e quero) dizer sobre ele seria spoiler, então vou deixar vocês lerem para conhecer a peça.

Personagens Secundários: Clarice é de certa forma uma protagonista também, mas como somos guiados pelos instintos de Téo o livro todo, decidi considerá-la como uma secundária muito importante para a trama. De espírito livre, Clarice odiava amarras e qualquer coisa que a prendesse a alguma coisa. Decidiu seguir sua veia artística, mesmo com a desaprovação da mãe. Ela queria viajar para conseguir terminar seu roteiro, Dias Perfeitos, mas foi impedida por Téo, que depois decidiu seguir o curso de suas personagens. Eu senti o que ela sentiu, mesmo que o livro não fosse narrado pelo seu ponto de vista. Eu me sentia agoniada por ela e sentia suas dores, o que me deixou muito mal (longa história). É uma daquelas personagens que eu queria ter o poder de ajudar, tirá-la daquela situação. Eu gostei dela ao ponto de me importar, como se ela fosse uma pessoa real que eu estivesse observando sofrer sem poder fazer nada para impedir. Quanto aos outros personagens, também gostei da mãe de Téo, Patrícia, apesar de eu achar que ela foi pouco trabalhada, não merecia um filho como aquele.

Capa, Diagramação e Escrita: Eu adorei a capa. A simplicidade da imagem combina perfeitamente com o livro (o anão representa o chalé que Téo e Clarice se hospedaram no Hotel Fazendo Lago dos Anões – que era comandado por anões), e ainda tem o tom sombrio perfeito para a trama, só não gostei daquela bola rosa enorme com a citação do Scott Turow, poderiam ter só escrito normalmente como em outros livros. A diagramação está bem simples, mas boa para ler. A única modificação é quando Téo lê uma parte do roteiro de Clarice, que fica com uma fonte diferente e contém anotações escritas à mão nas margens. Gostei bastante do detalhe. Eu gostei da narrativa do Raphael e ele é bem descritivo nas cenas mais pesadas (aquelas com muito sangue e cheias de agonia), então não recomendo que você leia esse livro se tiver estômago fraco. Eu mesma cheguei a ficar mal com uma parte, mas isso também envolveu outras coisas, então não levem muito em consideração minha experiência. É narrado em terceira pessoa, e tive a sensação de que até o narrador acreditava em Téo, como o próprio.

ConcluindoApesar de bem escrito e com cenas fortes, o livro não foi TUDO aquilo que eu esperava. Algumas partes são bem clichês em romances assim e o final me deixou muito revoltada, não gostei mesmo. Haviam alguns caminhos que o autor poderia ter escolhido, e ele escolheu o que menos me agradou. No geral, o livro vale a pena ser lido, a história é boa e bem contada, não poupando descrições ou colocando limites nas falas dos personagens. Como eu disse antes, o livro é perturbador, e os sentimentos de cada um ao terminá-lo podem ser diferentes, então leiam e tirem suas próprias conclusões.

Quotes:
(...) a sala de anatomia era seu espaço. As macas pelos cantos, os cadáveres dissecados, os membros e os órgãos em potes davam a ele uma sensação de liberdade que não encontrava em nenhum outro lugar.

(...) Sentia-se um monstro. Não gostava de ninguém, não nutria nenhum afeto para sentir saudades: simplesmente vivia. Pessoas apareciam e ele era obrigado a conviver com elas. Pior: era obrigado a gostar delas, mostrar afeto. Não importava sua indiferença desde que a encenação parecesse legítima, o que tornava tudo mais fácil.

“Você daria um beijo em alguém só para provar que está certa?”
“Não quero provar nada. Quero mostrar que suas atitudes têm sido um tanto maníacas. A gente mal se conhece, Téo.”

(...) Téo fora surpreendido por Clarice: alertado pela beleza, enlaçado pela espontaneidade e condenado pelo beijo com sabor de gummy  de limão.

(...) Téo continuava a desprezar a raça humana, mas ao menos agora era um desprezo desinteressado, quase piedoso. Finalmente, sentia amor.

Pouco a pouco, Clarice reconquistava uma parcela de liberdade. Jamais voltaria a ser aquela menina esvoaçante que ele havia conhecido no churrasco. Afinal, relacionamento também é privação. Estavam atados um ao outro. Ele levaria Clarice consigo para sempre: já não podia viver ou mesmo morrer sem ela.

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