Resenha - Fale!

Resenha feita pela !
Título: Fale!
Título Original: Speak
Livro Único.
Autor: Laurie Halse Anderson
Editora: Valentina
Páginas: 288
Ano: 2013
Saiba mais: Skoob
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Sinopse: Fale sobre você... Queremos saber o que tem a dizer.” Desde o primeiro momento, quando começou a estudar no colégio Merryweather, Melinda sabia que isso não passava de uma mentira deslavada, uma típica farsa encenada para os calouros. Os poucos amigos que tinha, ela perdeu ou vai perder, acabou isolada e jogada para escanteio. O que não é de admirar, afinal, a garota ligou para a polícia, destruiu a tradicional festinha que os veteranos promovem para comemorar a chegada das férias e, de quebra, mandou vários colegas para a cadeia.
E agora ninguém mais quer saber dela, nem ao menos lhe dirigem a palavra - insultos e deboches, sim - ou lhe dedicam alguns minutos de atenção, com duvidosas exceções. Com o passar dos dias, Melinda vai murchando como uma planta sem água e emudece. Está tão só e tão fragilizada que não tem mais forças para reagir.
Finalmente encontra abrigo nas aulas de arte, e será por meio de seu projeto artístico que tentará retomar a vida e enfrentar seus demônios: o que, de fato, ocorreu naquela maldita festa?

A Trama: Melinda Sordino poderia ser qualquer adolescente que nós conhecemos. Tinha amigos, era popular, ia a festas. Numa dessas festas, regada a álcool, apesar de ser para menores de idade, acontece uma coisa horrível com Melinda. Ela chama a polícia, mas seu desespero é tão grande que ela foge quando a polícia chega e os policiais recolhem as bebidas e alguns jovens. As amigas de Melinda param de falar com ela. Seus colegas de escola a desprezam. Ela passa a sofrer bullying e se torna a esquisita da qual ninguém deve chegar perto. E esse é o primeiro ano do ensino médio, o que torna tudo mais difícil.
Fale! me deixou na cabeça a ideia de que esse livro deveria definitivamente ser apresentado aos adolescentes nas escolas. Nós temos uma protagonista e o trauma que ela sofreu, mas o livro abrange muito mais que isso. Fale! traz um estímulo para você falar, falar sobre o que te aflige, coisas que te aconteceram, marcaram negativamente e você precisa contar para alguém, que sabe que tem que fazer… mas não faz por medo.

A Protagonista: Como o livro é todo narrado por Melinda, é fácil entender o que se passa pela cabeça dela, e também surpreendente. Ela não fica se fazendo de vítima o tempo todo, mas também não entende essa aversão das pessoas com ela.
Melinda tenta se camuflar pela escola para não ser notada pelos que a ridicularizam. Com suas roupas largas, unhas roídas e lábios mordidos, ela está sempre ansiosa por alguma coisa, por alguém que olhe para ela e possa lhe ajudar, que não a julgue pela aparência e por ela ter mudado de comportamento de uma hora para outra.
Além de suas amigas terem virado as costas, os pais de Melinda parecem se afastar mais um do outro a cada dia e as relações em sua casa só vão se tornando mais mecânicas, assim, ela não se sente confiante para desabafar com eles. Uma família desgastada e com problemas de comunicação, não pode dar certo em lugar nenhum.

Personagens SecundáriosNesse começo do ensino médio, Melinda conhece novos professores e estudantes, entre eles a Heather, aluna nova que quer se enturmar e entrar em algum grupinho de qualquer jeito, mas como não consegue isso de cara, gruda na Mel, apesar da Mel ser calada e ela ser animada e tagarela. Heather é um reflexo do que Melinda costumava ser, antes do dia da festa. David Petrakis, um aluno que não chega a criar uma relação de amizade com a Mel, é um personagem desafiador e que desperta a admiração de nossa protagonista pela coragem de falar, quando essa era a vontade da Melinda e ela não consegue. O professor Freeman tem um importante papel no desenvolvimento de Melinda. Em suas aulas de arte, ele estimula a expressão da criatividade por meio dos sentimentos, e sempre é autêntico mesmo sendo chamado de louco.

Capa, Diagramação e Escrita: Fico muito feliz quando vejo uma capa linda e que combina com a trama, e esse é o caso de Fale! A capa nacional ficou bem mais bonita que a original. A editora caprichou na diagramação e o livro tem uns extras muito bacanas, como a entrevista com a autora e um guia que pode ser usado em grupos de leitura ou em sala de aula. Os estereótipos do ensino médio são retratados nos personagens de uma forma nada exagerada, o que evita que as cenas na escola sejam entediantes. A linguagem é simples, bem humorada e me agradou muito. 

ConcluindoApesar de o foco ser mais juvenil, Fale! transmite uma mensagem que pode ser o que o leitor precisa ler independentemente da fase da sua vida.  Recomendo o livro e sua adaptação cinematográfica, O Silêncio de Melinda, para todos que gostam de uma trama que faça refletir, que mostre problemas atuais que estão impregnados na sociedade. Fale! reforçou em mim o conceito de que não devemos julgar as pessoas somente pelo que elas aparentam ser, nossas cicatrizes deixadas por acontecimentos na vida são bem mais fundas.

Quotes:
É mais fácil não dizer nada. Fechar a matraca, passar o zíper, calar o bico. Toda aquela babaquice que você escuta na TV sobre se comunicar e expressar o que sente não passa de uma mentira. Ninguém quer realmente ouvir o que você tem a dizer.

Eu devia ignorar aquele papel. Não somente amassá-lo, mas destruí-lo com meus dedos e unhas, como Tião costumava fazer com as garras dele nas cadeiras de casa. Porém, a maneira como Lucius se dirigia a mim não era assim tão estapafúrdia. Ele não parecia ser nenhum avançadinho, no final das contas.A gente dorme até o meio-dia no Natal. Dou um suéter preto de presente para a mamãe e um CD de sucessos dos anos sessenta para o papai. Eles me dão um montão de vales presentes, uma TV para o meu quarto, patins de gelo e um caderno de desenho com lápis de carvão. Disseram que me viram desenhar. Quase conto para eles ali mesmo, naquele momento. Meus olhos ficam marejados. Eles notaram que ando tentando desenhar. Repararam em mim. Tento engolir a bola de neve presa na garganta. Isso não vai ser nada fácil. Tenho certeza de que suspeitam que eu estava na festa. Talvez até tenham ouvido falar que eu chamei a polícia. Enquanto estamos ali sentados, na frente da nossa árvore de Natal de plástico,[...] fico com vontade de contar tudo.

Prof. Freeman: - A arte sem emoção é como um bolo de chocolate sem açúcar. Deixa a gente nauseado. - Ele mete o dedo na garganta. - Da próxima vez que for trabalhar com as suas árvores, não pense nelas. Pense em amor ou ódio, ou em alegria, ou em raiva; o que quer que a faça sentir algo, que leve as palmas de suas mãos a suarem ou os dedos de seus pés a se crisparem. Concentre-se nesse sentimento. Quando as pessoas não se expressam, vão morrendo aos poucos. Você ficaria chocada se soubesse quantos adultos estão realmente mortos por dentro, vivendo sem ter ideia de quem são, só esperando que um câncer, um infarto ou um caminhão surja e acabe com eles. É a coisa mais triste que eu conheço.

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