Resenha - Tartarugas Até Lá Embaixo

Título: Tartarugas Até Lá Embaixo
Título Original: Turtles All The Way Down
Autor: John Green
Editora: Intrínseca
Páginas: 272
Ano: 2017 
Saiba Mais: Skoob
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Sinopse: A história acompanha a jornada de Aza Holmes, uma menina de 16 anos que sai em busca de um bilionário misteriosamente desaparecido – quem encontrá-lo receberá uma polpuda recompensa em dinheiro – enquanto lida com o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC).
Repleto de referências da vida do autor – entre elas, a tão marcada paixão pela cultura pop e o TOC, transtorno mental que o afeta desde a infância –, Tartarugas até lá embaixo tem tudo o que fez de John Green um dos mais queridos autores contemporâneos. Um livro incrível, recheado de frases sublinháveis, que fala de amizades duradouras e reencontros inesperados, fan-fics de Star Wars e – por que não? – peculiares répteis neozelandeses.

A Trama: A trama começa com a melhor amiga de Aza, Daisy, a convencendo a entrarem em uma jornada para encontrarem o bilionário Russell Pickett, e receberem a recompensa de 100 mil dólares, já que Aza conhece o filho do homem. Assim elas teriam mais chances de chegarem perto de pistas. Mas essa história é apenas pano de fundo para conhecermos melhor os personagens, principalmente Aza, com seus defeitos, qualidades e problemas. Esse é um daqueles livros que demoraram um pouco a me pegar, mas aos poucos foi me conquistando mais, me fazendo entrar mais e mais no mundo de Aza. Eu não tenho TOC, mas o autor, sim; e pelo o que pude ler por aí, ele faz um retrato bem realista dessa condição. Como a história mesmo faz alusões várias vezes durante a trajetória da protagonista, a leitura desse livro foi uma espiral, um redemoinho pela cabeça de Aza e sua visão de mundo. O livro também aborda temas como perda de pessoas queridas, e a necessidade de se tornar responsável (num sentido de "ser adulto" da palavra) cedo de mais.

Os Personagens: Para mim, Aza foi uma personagem única, já que não tinha lido um livro narrado por alguém com TOC antes (não que me lembre, pelo menos). Não foi uma jornada fácil estar em sua cabeça, às vezes ela me deixa nervosa e com raiva, principalmente quando colocava empecilhos em coisas fáceis de ser resolvidas. Mas esse é o ponto do livro, nos mostrar que nem sempre algumas atitudes e decisões são culpa da pessoa, e sim daquela vozinha insistente dentro da cabeça dela, mostrando tudo que poderia dar errado, colocando dificuldades onde não há. Mais um daqueles livros para desenvolvermos nossa empatia em relação aos problemas dos outros, que nem sempre fazem sentido para nós, mas não sabemos o que está se passando na cabeça de cada um. Por isso Daisy, a melhor amiga de Aza, foi a personagem com quem mais me identifiquei na história (além do fato dela escrever fanfics), por ela às vezes não saber como lidar com o transtorno da amiga, e isso também tá tudo bem, contanto que haja respeito e empatia. Davis é um personagem que foi ganhando minha simpatia aos poucos, principalmente quando Aza vai descobrindo mais coisas sobre ele. Ele tem várias decisões difíceis a tomar ao longo da história, coisas que vão fazendo ele se tornar adulto cedo de mais, mas é legal observar sua evolução ao longo do livro, descobrimos seu lado sensível e como se sente em relação a tudo que estava acontecendo.

Capa, Diagramação e EscritaA capa não é das mais atraentes, mas seu conceito combina com o livro, o que às vezes basta. A diagramação é simples e confortável para leitura. John Green levou seis anos para lançar esse livro (o último tinha sido A Culpa é das Estrelas, vocês acreditam?), mas valeu a pena esperar. TOC é um assunto que ele aborda com propriedade (já que ele mesmo tem o transtorno), e fica bem fácil de entender como funciona a cabeça de quem tem transtorno obsessivo compulsivo. Claro que nem todo mundo é igual, mas para pessoas leigas, esse livro pode ser uma ótima porta de entrada para entender mais sobre o assunto.

Concluindo: Tartarugas Até Lá Embaixo é um livro difícil de se entrar no início, mas que no final acaba sendo apaixonante. Os personagens são bem vivos e te trazem emoções mistas ao longo da história, o que acontece entre você e pessoas da vida real. É uma leitura deliciosa, mas também triste, além de ensinar um pouco para pessoas que não sabem muito sobre o assunto.

Setembro Amarelo (pode conter spoilers, mas também serve como aviso de gatilho caso você seja muito sensível ao tópico): Em resumo, TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo) é uma série de pensamentos excessivos (obsessões) que levam a comportamentos repetitivos (compulsões); como Aza pensando em todas as bactérias do seu bioma, e como o mundo ao redor poderia fazer ela pegar uma infecção e matá-la - e isso não sai da sua cabeça. E também o fato dela não conseguir beijar alguém sem pensar nas bactérias sendo trocadas e se instaurando em seu organismo, precisando correr para o banheiro para lavar a boca. Ou quando ela está no hospital e tudo o que consegue pensar é na necessidade de beber o álcool em gel para matar a C. diff, bactéria que ela jura estar dentro dela e que vai matá-la em pouco tempo. Há vários artigos na internet para você entender como esse transtorno funciona e buscar ajuda caso você também sofra com isso - ou ajudar, se conhecer alguém que tenha TOC. Já ouvimos muitas brincadeiras com o nome da doença quando alguém é organizado de mais, gosta de arrumar as roupas por cor e etc; mas existe um abismo de diferença entre ser organizado e ter TOC, e a banalização da doença acaba impedindo muitas pessoas de buscar ajuda, o que pode acarretar em consequências trágicas (algo me diz que ingerir álcool, aquele puro mesmo, para matar bactérias, não é uma ação muito saudável). Estamos aqui para incentivar quem sofre de TOC (ou qualquer outra doença mental) a procurar ajuda profissional psicológica - e, para quem apenas conhece alguém, também incentive-a a procurar esse tipo de atendimento. Pode não parecer, mas tudo fica mais fácil quando decidimos nos ajudar.

Caso necessite de ajuda imediata por não estar conseguindo lidar com esses pensamentos constantes na sua cabeça, entre em contato com o CVV (Centro de Valorização à Vida) pelo número 188, às vezes apenas uma conversa com alguém que realmente nos ouça faz muita diferença.

Quotes:
(...) eu estava começando a entender que a vida é uma história que contam sobre nós, não uma história que escolhemos contar.


Qualquer um pode olhar para você, mas é muito raro encontrar quem veja o mesmo mundo que o seu.


(...) ninguém nunca diz até logo a menos que queira ver a pessoa novamente.


Tanta gente exalta a beleza dos olhos verdes e azuis, mas havia uma profundidade nos olhos castanhos de Davis que simplesmente não existe nas cores mais claras, e o olhar dele me fez sentir como se houvesse alguma coisa que valesse a pena ver também no castanho dos meus olhos.


- (...) O mais apavorante não é girar sem parar numa espiral crescente, é girar sem parar na espiral que se afunila. É ser sugado para um redemoinho que vai se fechando mais e mais e esmagando seu mundo até você estar apenas girando sem sair do lugar, preso numa cela que é exatamente do seu tamanho e nem um milímetro a mais, até você finalmente se dar conta de que na verdade não está preso na cela. Você é a cela.


Nossos corações estavam partidos nos mesmos lugares. Isso é parecido com amor, mas talvez não seja exatamente a mesma coisa.


Tenho a sensação de que você só gosta de mim de longe. Preciso que gostem de mim de perto.


Estar vivo é sentir saudade.